O Congresso brasileiro avança as peças no seu enxadrismo selvagem e devastador. Alguns peões acabam abandonados no tabuleiro – como a CPI da Lava-Toga – para que o cavalo opte por investigar fake news, distraindo o adversário – no caso, a opinião pública -, e liberando a rainha para as jogadas mais secretas e relevantes, dignas de um grande-mestre. Do mal, é claro.

Entre as estratégias está a intenção do presidente do Senado Davi Alcolumbre de fatiar o setor elétrico como condição para aprovar o nome de Eduardo Bolsonaro como embaixador nos Estados Unidos. Essa mera vaidade em família terá então um alto preço e pode custar a nomeação de um despreparado embaixador em detrimento da derrubada de um dos ministros mais competentes deste Governo – já nesta ou na próxima semana.

Alcolumbre quer cargos, muitos cargos, para empregar asseclas e aspones em Itaipu, Furnas e na Eletronorte – enchendo essas estatais de gente sabidamente incapaz, mas capaz de qualquer coisa para manter a máquina funcionando de acordo com o que determinarem seus chefetes. Ocorre que o Ministério de Minas e Energia – assim como o da Agricultura – recebeu carta branca do presidente da República para avançar, entregue que foi a um especialista no assunto, o almirante Bento Albuquerque.

Com o presidente no hospital, o senador Alcolumbre teve a audácia de assediar o almirante com os pleitos de diversos partidos por cargos no setor elétrico. Ouviu um não bem sonoro do ministro e a informação do militar de que tem plenos poderes – dados pelo presidente – para não acatar interferência política em sua pasta.

Uma saída boa para todo mundo?

Alcolumbre ainda teve tempo de ouvir um último recado. O ministro foi categórico ao dizer que jamais ouviu esse tipo de instrução de quem o colocou no cargo. O presidente do Senado deixou irado o encontro e, numa iniciativa nada republicana, já quer a cabeça de Bento numa bandeja como uma condição a mais para Eduardo Bolsonaro ir morar em Washington – mesmo sem dominar com desenvoltura o idioma que lá se fala.

Agora, os senadores ligados a Alcolumbre já articulam uma “saída boa para todo mundo”. Bento deixaria o ministério e ficaria com uma vaga no Supremo Tribunal Militar – um emprego com os mesmos privilégios de um ministro do STF – mas sem a demasiada exposição de vidraça que tem o tribunal tocado por Dias Toffoli. No lugar do almirante entraria alguém não tão capacitado, porém mais maleável à ideia de transformar o setor elétrico – que Bento tão bem faxinou – num cabide de emprego.

Resta saber que peça de xadrez o presidente Bolsonaro quer representar nessa partida única, sem regras, sem pudor e sem juízo.