Matéria para Opinião & Notícia

Itália e França em guerra pelo não italiano Leonardo da Vinci

Toda manchete jornalística precisa de algo que atraia o leitor. Esta foi a intenção do título acima. Fato é que Roma e Paris vivem uma surda batalha para proporcionar este ano a melhor exposição em homenagem aos 500 anos da morte de Leonardo da Vinci, considerado o artista mais genial de todos os tempos.

Em Paris, o Louvre prepara uma exposição para o outono. Entre as atrações, a Monalisa – centenária hóspede do museu. Entre outras obras a serem reunidas na coletânea está o quadro “A rapariga lavando os pés a uma criança” – datado de 1483 e avaliado em um milhão de euros – a ser emprestado pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

A Itália contra-ataca. O governo daquele país mobilizou os ministérios da Cultura, Educação e das Relações Exteriores – com o lançamento de uma série de TV, aplicativos e mais de 500 eventos e exposições em Florença, Turim, Milão, Veneza e Roma – e anunciou ainda o lançamento de quatro selos postais representando obras do mestre da Renascença e também de uma nota de dois euros com a efígie do homenageado. Selos e cédula serão divulgados no próximo dia 2 de maio, dia do aniversário de morte do gênio florentino, ocorrida na França.

O embate político entre Itália e França

Num cenário em que a União Europeia vive a expectativa do Brexit, as diferenças políticas entre o presidente francês Emmanuel Macron e o vice-primeiro-ministro da Itália e ministro do Interior Matteo Salvini chegaram agora a um momento delicado. Salvini interrompeu as boas negociações entre seu antecessor Paolo Gentiloni e Macron para a cessão por empréstimo de quadros e desenhos ao Louvre para homenagear Da Vinci.

O título desta matéria diz ainda que o artista não era italiano. E o motivo é simples. Mesmo tendo ele nascido na comuna de Vinci, na região de Florença, em 1452, as 20 diferentes regiões – entre elas a Toscana, a Calábria e a Sicília, por exemplo – somente seriam unificadas em um estado em 1861.

Filho ilegítimo do tabelião Piero e da camponesa Caterina, Leonardo di Ser Piero da Vinci era ainda um brilhante inventor, um visionário que projetou armas bélicas semelhantes a canhões, engenhocas voadoras que antecederam a criação do helicóptero e, ainda, a chapa de fazer queijo quente – entre tantos outros inventos. Além da pintura, Leonardo dissecava cadáveres – para horror de seus traficantes de corpos. O objetivo era o estudo da Anatomia Humana.

Um pouco sobre a Monalisa

Concluída provavelmente em 1507, Monalisa foi uma encomenda do mecenas Francesco del Giocondo, que jamais veria a pequena tela com o retrato da esposa, Lisa Gherardini, a Gioconda.

Debaixo do braço do mestre – por assim dizer – a obra atravessou a fronteira e foi parar em Versailles e, por último, no Louvre. Séculos depois, em 1911, o nacionalista italiano Vicenzo Peruggia roubou o quadro e o vendeu a uma galeria em Florença. A Monalisa acabou devolvida ao museu parisiense, mas o episódio tornou a tela – de 77 cm por 53 cm – famosa em todo o mundo. Peruggia cumpriu pena de sete meses de prisão e se transformou em herói da arte italiana.