Editorial do Jornal Terceira Via, 05/02/2013

Dizem que a imprensa não vive sem uma desgraça. Na verdade, a grande tragédia nacional é nossa falta de memória. O incêndio na boate em Santa Maria, por exemplo, fez os fluminenses esquecerem por completo um triste e recente episódio. Se a lembrança do leitor não se iluminou, talvez ajude a imagem de Zeca Pagodinho num quadriciclo fazendo o que as autoridades não fizeram na enchente em Xerém.

O distrito localizado em Duque de Caxias praticamente caiu no esquecimento depois do fato ocorrido na boate Kiss. Santa Maria, por sua vez, vai perder espaço para um evento que apaga e entorpece corações e mentes: o carnaval. Sem querer agourar e batendo três vezes na madeira, outros acidentes e escândalos logo virão para abastecer novos conteúdos da imprensa e apagar a memória recente de todos nós – serão crimes bárbaros, desastres, corrupção, incêndios ou desabamentos. Vivemos um Alzheimer social.

Quando poderosos não são punidos por seus malfeitos e até mesmo conquistam mais poder, a mensagem é absorvida rapidamente e repercute na sociedade causando uma sensação geral de desrespeito à lei e desprezo pelo próximo – a sociedade fica doente. É a história de Ouroboros – a cobra que come a própria cauda. Donos de boates passam a acreditar que tudo podem. Fiscais se corrompem. Torcedores trucidam pessoas que usam a camisa de outro time. Mijões se multiplicam nos dias de folia. Estacionam-se nas calçadas, joga-se lixo na rua. Autoridades perdem o que lhes resta de compostura. Pode tudo.

Está escrito no início do texto: a grande tragédia nacional é nossa falta de memória. Não nos esqueçamos disso!