Alguns nomes de pessoas são derivados de personagens da História. E personalidades importantes dão nome a lugares pelo mundo. Claudio, por exemplo, foi um imperador romano lembrado pelo fato de ser manco. O continente americano, por sua vez, recebeu este epônimo em homenagem ao navegador Américo Vespúcio. Pra ficar tudo em casa, o descobridor deste novo mundo, Cristóvão Colombo, dá nome à Colômbia. Já Simon Bolívar – que liderou guerras de independência desta mesma América – batiza, como todo mundo sabe, a vizinha Bolívia. São “eponímicas” também expressões como Abreugrafia e Cesariana – para citar apenas algumas.

No entanto, quis a informalidade brasileira criar o que se pode chamar de “epônimos contemporâneos”. Eles nos levam a deixar a História de lado para cair na gandaia. Um nome próprio que ganhou um significado bem humorado é o famoso Ricardão. Ele era citado num esquete do antigo programa de rádio e TV “Balança, mas não cai”. O primo rico (Paulo Gracindo) dizia ao primo pobre (Brandão Filho) que só viajava sozinho. E deixava uma “solitária esposa” aos cuidados do amigo Ricardão. O nome virou sinônimo de amante, consagrado há cerca de 70 anos.

O Bráulio e o ‘papo de cerca Lourenço’

Em 1996, surgiu na TV o personagem de uma campanha educativa mal sucedida – e de mau gosto – do Ministério da Saúde. O objetivo era disseminar o uso de preservativos. Num bar, sentado à mesa, um homem conversava com o próprio órgão sexual – a quem chamava de Bráulio. O diálogo, sobre as chances de conquistas naquela noite, era politicamente incorreto e cheio de baixarias. A partir daí, nenhum Bráulio teve mais sossego na vida.

Muitos outros nomes – como vamos ver – ganharam significados engraçados e populares. Mas o assunto é também tão sério e importante que foi a tese de doutorado. O estudioso Eduardo Tadeu Roque Amaral, na Faculdade de Filosofia e Letras da USP destaca outros personagens. São eles Maria-gasolina, Maria-mole, João-ninguém, Zé-maria – como alguns apelidam a morte. Ele lembra que o Dicionário Eletrônico Houaiss tem 74 verbetes que começam com Maria e outros 72, com João.

Da Patricinha ao Mauricinho, é grande a lista de nomes usados popularmente para descrever diferentes comportamentos, pessoas ou mesmo objetos. Há os Judas traidores e os vaidosos Narcisos. Quem passa mal acaba chamando o Raul. Tem ainda a Teresa – a corda feita de lençóis que os presidiários usam para vencer muros e fugir de presídios. Será o Benedito?

Uma expressão surgida no Ceará explica aquela conversa que enrola e só tem o objetivo de ganhar tempo. É o papo de cerca Lourenço. No município do Crato, nos anos 1940, o beato Lourenço atraía muitos seguidores, o que desagradava aos coronéis da cidade. Até que alguns soldados foram chamados e ‘cercaram Lourenço’ a pretexto de conversar. O religioso acabou morto no episódio.

Para obter vantagens em determinadas situações e, principalmente, não acabar como o pobre Lourenço, pode-se dar um ‘Migué’. Finge-se uma coisa e se faz outra. Em Portugal, irmão mais novo de Pedro I – então imperador do Brasil e primeiro da linha sucessória em Lisboa. Miguel deu uma volta no primogênito, ao se casar com uma sobrinha. E ainda surrupiou o trono que deveria ser do irmão – rompendo acordo entre ambos. Nesse episódio, Pedro deu uma de Zé Mané!